Searas perdidas, falta de pastos para alimentar gado e «impactos negativos» na evolução e conservação de espécies são os efeitos da seca em Portugal e Espanha, que preocupam agricultores e ambientalistas dos dois países.
Em Portugal, «a grande maioria das searas de outono/inverno, cerca de 200 mil hectares, devem estar perdidas e os custos com a alimentação do gado aumentaram exponencialmente», devido à falta de pastos, disse à agência Lusa o presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), João Machado.
Em território português, as regiões «mais afectadas» são aquelas onde se semeiam cereais de outono/inverno (Alentejo, parte do Ribatejo e Trás-os-Montes) e se cria gado (todas as do interior do país), indicou.
A chuva dos últimos dias «está a ajudar os agricultores e a atenuar imenso o que poderia ser um cenário de seca mais devastador», ao permitir o crescimento de pastos e o aumento das reservas de água das albufeiras, sublinhou.
No entanto, frisou, «57% do território português ainda está em seca extrema e 42% em seca severa», o que «é muito preocupante, porque se aproxima o verão e poderá ser preciso mais medidas, além das que o Governo já anunciou» para mitigar os efeitos da seca.
«Ainda é cedo para pedir mais medidas», disse João Machado, que, para já, gostaria de ver implementadas, «o mais rápido possível», as medidas anunciadas pelo Governo, como a antecipação das ajudas directas comunitárias.
Segundo o presidente da associação ambientalista Quercus, Nuno Sequeira, «ainda não é possível saber» se as recentes chuvas «chegarão para que as albufeiras consigam reter a água suficiente para o abastecimento agrícola e doméstico».
«Só no início do verão teremos essa percepção e, por isso, estamos preocupados», disse, frisando que também haverá «impactos negativos» a nível biológico, porque há espécies «muito atrasadas» nos seus ciclos reprodutivos.
A seca também tem feito «mossa» em Espanha, onde o ano hidrológico está a ser «o mais seco dos últimos 65 anos»e a Coordinadora de Organizaciones de Agricultores y Ganaderos (COAG) contabiliza prejuízos «superiores a 1.600 milhões de euros».
«Em Espanha, está perdido um terço dos 5,5 milhões de hectares de cereais de sequeiro que existem, pelo que estimamos mais de mil milhões de euros de perdas. Na pecuária, os prejuízos estão avaliados em mais de 600 milhões de euros, devido à falta de pastos e aos custos com a alimentação do gado», disse à Lusa o secretário-geral da COAG, Miguel Blanco.
No sector agrícola, os prejuízos da seca estendem-se «a todo o país», mas as comunidades autonómicas «mais afectadas» são a Estremadura, que «está numa situação muito complicada», a Andaluzia, Aragão e parte da Catalunha.
Na pecuária, os pastos perderam-se um pouco por todo o país, disse Miguel Blanco, considerando que as medidas tomadas pelo Governo espanhol para mitigar os efeitos da seca, como a antecipação do pagamento dos apoios comunitários, são «apenas paliativas».
Os efeitos da seca na Estremadura espanhola, no sul do país, também preocupam os ambientalistas, que reconhecem «grandes impactos» nas áreas da agricultura e da pecuária.
«Estamos preocupados devido à grande importância que a agricultura e a pecuária têm na região e em todo o sul de Espanha, sobretudo na conservação dos montados», que depende da presença de gado em regime extensivo, frisou Jesus Valiente, da ADENEX - Associação para a Defesa da Natureza e dos Recursos da Estremadura.
fonte:Lusa/SOL