Sábado, 28.05.11

Está há 12 anos ao serviço da lavoura micaelense e desde logo refere: "o meu grande objectivo passa exclusivamente pela Associação Agrícola de São Miguel, se a lavoura micaelense assim o quiser", refere Jorge Rita.

Jorge Rita não gosta de alimentar tabus, vai recandidatar-se às eleições do próximo mês de Julho e afirma mesmo que enquanto tiver forças físicas, psicológicas, capacidade e vontade para estar à frente da lavoura micaelense, obviamente vai estar sempre na linha da frente na defesa dos interesses dos agricultores. Sabendo que esse é um trabalho complexo, há, ainda, muitos investimentos a fazer no sector, muitos dossiês e negociações que as pessoas têm que estar preparadas para tal.

Quando Jorge Rita entrou para a Associação Agrícola o maior problema tinha a ver com o rendimento dos agricultores e tudo o que afecta directa e indirectamente os seus rendimentos. Agora, embora esse não seja um tema a descurar, outras preocupações apoquentam o sector. Para 2015 a abolição das quotas promete muitas "dores de cabeça" aos agricultores, uma questão que já foi problema noutras perspectivas. "Nós pretendíamos mais quota para os Açores, o que se foi conseguindo aos poucos. Depois houve um ano em que de uma forma bastante acentuada a lavoura produziu, não acima da quota, mas chegou a ser penalizado e foi a Associação Agrícola de São Miguel que inverteu essa situação em Bruxelas quando as multas já eram consideradas um facto consumado", lembra Jorge Rita.

As reformas da Política Agrícola Comum, PAC, tinham, e têm, que debater as questões relacionadas com as quotas leiteiras, mas como se analisa por motivos diferentes.

 

Evolução da

agricultura

 

"Durante estes anos têm-se sentido uma evolução muito grande na agricultura, principalmente na área do leite. Este sector é o que tem tido maior evolução na agricultura, sabendo o peso que tem nos Açores e na economia, embora existam ilhas com propensão para a fileira da carne", explica Jorge Rita.

É o leite que gera mais discussão, mais polémica, isto porque, segundo Rita, "tem a ver com a maior parte dos agricultores, da população activa. Tem-se assistido a uma evolução muito acentuada em termos genéticos. Temos um enorme potencial de lavradores na Região e há uma apetência natural para a produção leiteira. Não só pelas condições climatéricas, mas principalmente pela grande apetência que os agricultores têm para este tipo de actividades", conta o Presidente da Associação Agrícola de São Miguel.

Mas nem tudo é um mar de rosas nesta área. "Pena é que [estas actividades] nem sempre são acompanhados pelos poderes políticos. Há algum acompanhamento, mas não o desejado. A própria opinião pública tem sempre alguma aversão à agricultura. Lamentamos que isso tenha acontecido, mas hoje também já percebemos que falar da agricultura está na moda e as pessoas já começam a perceber que a agricultura é essencial não só nos Açores como em todo o mundo", sublinha Jorge Rita.

A reestruturação do sector foi alvo de várias reivindicações constantes da Associação desde os resgates leiteiros que se têm feito na RAA e que permitiram a saída de pequenos agricultores com dificuldade, de pequenas dimensões e sem família, mas que saíram com dignidade.

A reestruturação tem sido feita também com a grande entrada de jovens agricultores e com reformas antecipadas paralelamente, porque antes não era assim. "Fazem-se muitas reformas antecipadas com entrada simultânea de jovens agricultores. Há uma grande apetência de jovens agricultores na Região em comparação com o continente o que é um bom sinal", confere Jorge Rita.

Política e

Agricultura

 

O Conselho Regional de Agricultura, realizado na passada semana em Santana, serviu para reunir vários intervenientes da agricultura regional, mas também o Presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César. "É bom que o Presidente do Governo Regional reconheça que este é o sector mais importante e que todo o investimento feito na agricultura tem sempre retorno em termos económicos e em termos sociais", diz Jorge Rita.

A diversidade deste sector também foi abordada pelo interlocutor. Segundo Jorge Rita, "todos nós temos a consciência que o leite é o mais importante, mas que a carne tem uma grande importância em algumas ilhas e é complementar ao leite noutros casos de forma mais acentuada. E na área da diversificação agrícola todos nós temos a consciência de que é importante que se comece a encurtar de forma a reduzir de forma substancial as importações".

 

Todos têm de

consumir os

produtos da Região

 

De acordo com Jorge Rita falar e estabelecer algum consentimento não basta para o desenvolvimento de um sector fulcral como a agricultura. "É importante que as pessoas consumam os nossos produtos, é importante que a comercialização e grandes superfícies dêem prioridade aos nossos produtos o que nem sempre acontece", afirmou Jorge Rita.

O responsável pela lavoura micaelense referiu mesmo que "é essa a mensagem que temos que dar a todos. Consumir e privilegiar aquilo que é nosso. Não podemos limitar as importações num mundo globalizado como é este hoje, mas podemos sensibilizar sim as pessoas para que consumam aquilo que é nosso estando, desta forma, a gerar riqueza de uma forma transversal a todos os sectores de actividade e a toda a população em geral", disse.

 

Carne: Relações União Europeia

versus Mercosul

 

"A concorrência dos países da América Latina e não só em relação à carne como a outros produtos é uma concorrência totalmente desleal". Foi com esta afirmação pronta que Jorge Rita respondeu a uma questão muito debatida nos últimos dias. De acordo com este responsável no sector, caso se venha a concretizar a liberalização e comercialização da carne proveniente da América Latina esse poderá ser um momento fatal para o sector nos Açores e Europa.

"Toda a gente percebe que na América Latina as produções de carne são feitas com mão-de-obra escrava, a rastreabilidade não existe ou se existe é muito pouca. As condições higiene-sanitárias não existem como nós temos na União Europeia. As obrigatoriedades também não são como na UE. São animais quase todos eles alimentados com produtos geneticamente modificados, essa proibição depois existe na Europa. Na Europa não existe mão-de-obra escrava nem queremos ter", explica Jorge Rita, que acrescenta ainda que "a carne poderá ficar condenada. Depois acabamos por não ter dimensão de mercado. Enquanto houver alguma falta de carne consegue-se vender, mas no dia em que haja algum excesso obviamente que a carne poderá ter os seus dias contados se não houver inversão de alguma destas situações", sublinha.

 

Quotas leiteiras têm destino traçado

 

2015 é um ano crucial para a fileira do leite. Com o cenário traçado de abolição das quotas resta agora encontrar soluções e procurar entender como vai viver a estrutura que lida diariamente nesta área.

Para Jorge Rita, a Região tem de estar caso ainda seja possível negociar algo na linha da frente das negociações, isto porque tal como defendeu sempre, é apologista desta regulação do mercado.

Mas um eventual cenário de continuidade das quotas leiteiras parece estar já arredado. Jorge Rita é claro no que diz respeito a soluções a apresentar. "Nós temos que apostar cada vez mais na qualidade dos nossos produtos, ou seja, na área da produção essa exigência na qualidade é cada vez maior, até porque o preço do leite pago ao produtor em cada litro é pago baseado na sua qualidade. As exigências da qualidade são cada vez maiores como toda a gente percebe. As indústrias têm que transformar essa qualidade em valor acrescentado e o Governo Regional tem que investir cada vez mais em caminhos, mais água, mais luz, modernização das explorações e portanto não podem faltar verbas para este tipo de situações", afirma um dos mais importantes responsáveis da lavoura nos Açores.

"Os nossos produtos têm que ser valorizados e têm que ser nivelados por um preço por cima e não por baixo o que infelizmente nos nossos mercados os produtos dos Açores são muito procurados, são todos vendidos principalmente na área do leite e o que acontece normalmente é que são depreciados e delapidados precisamente no seu preço". Jorge Rita prossegue e diz mesmo que "esta situação tem que ser invertida, é preciso encontrar formas comerciais. Já foram criadas infra-estruturas a nível nacional pela Região para que essa situação possa vir a melhorar. Têm dado alguns passos bastante positivos mas há ainda um caminho longo a percorrer porque se esses pressupostos foram salvaguardados (se se produzir com qualidade, melhorar as nossas condições infra-estruturais cada vez com grande urgência, houver mais investimento no sector a todos os níveis e com uma indústria a valorizar os nossos produtos pagando melhor à produção e vendendo melhor e tendo mais receitas), obviamente a abolição das quotas pode até não ter o impacto tão negativo como todos nós pensamos", considera Jorge Rita.

"Aqui na RAA não vamos produzir em quantidades, que são limitativas até pela área que nós temos disponível para alimentar os nossos animais", concluiu Jorge Rita.

 

SINAGA e

concorrência desleal dos terrenos

 

O Presidente da Associação Agrícola e Federação Agrícola dos Açores reafirmou que sempre foi e deu esse parecer a Bruxelas da aquisição pública da SINAGA por parte do executivo açoriano. No entanto, para Jorge Rita, a forma como foram abordadas as situações de aluguer de terrenos perante alguns rendeiros, senhorios de uma forma especulativa trouxe algum mal-estar ao sector.

Segundo Jorge Rita o facto de se produzir na beterraba não vai compensar um eventual afastamento da fileira do leite com a abolição das quotas. Para o dirigente associativo é bom que haja diversificação como acontece com a produção de beterraba, ananás ou banana, mas essas não serão vias que podem vir a substituir a forte produção de leite na Região.

"O que nos interessa é que a SINAGA possa crescer e que a beterraba também cresça de uma forma sustentada porque pode ser também uma alternativa à produção de leite aqui na Região mais concretamente em São Miguel", referiu.

 

Trabalho em prol do sector

Jorge Alberto Rita, natural da freguesia da Maia, aos 51 anos de idade afirma que quer continuar a lutar em prol do sector. "O nosso trabalho, das associações agrícolas, é o de uma instituição, organização de reivindicação". "Obviamente aqui o objectivo da Associação Agrícola de São Miguel, que é aquela que tem maior dimensão, é ajudar a influenciar perante o poder político e não só quer a nível regional, quer a nível nacional e até mesmo em Bruxelas, onde possamos exercer um magistério de influência como parceiro social responsável como temos demonstrado durante todos estes anos", reitera Jorge Rita.

Fazer com que os políticos e demais intervenientes percebam a importância da agricultura na sociedade em geral nem sempre é muito fácil segundo Jorge Rita. "Hoje falar da agricultura está na moda e até os políticos já gostam de falar neste tema. Se calhar até muitos não percebem o que estão a dizer, mas de qualquer forma as pessoas já falam nisso".

"Somos uma Região Ultraperiférica, portanto o papel da associação é também fiscalizador do que as instituições fazem. O nosso relacionamento é também esse, mas também tentar influenciar o poder político sobre o papel que este sector tem, fazendo ver a importância do sector mais importante da RAA", concluiu Jorge Rita.

Para este homem que pondera as questões de trabalho como questões de princípio e formação pessoal, "de uma forma ou outra, a Associação Agrícola de São Miguel, que representa o maior sector de actividade, tem tido um papel preponderante nas políticas regionais em matérias da agricultura", afirma Jorge Rita em declarações ao "Diário dos Açores".

fonte:http://diariodosacores.pt/

publicado por adm às 16:45 | link do post | comentar | favorito
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