Por causa disso, pediu ontem aos países mais ricos do mundo que ajudem os agricultores mais pobres. As palavras de Gates vêm na sequência de um discurso que fez no dia anterior no Conselho de Chicago sobre Assuntos Globais, onde sublinhou a necessidade de um maior investimento dos governos dos países mais ricos na agricultura do Sul da Ásia e na criação de programas que apoiem o continente africano. Esta recomendação visa triplicar a produtividade nos países dessas zonas e reduzir assim a fome no mundo.
Foi a primeira vez que o fundador da Microsoft, de 55 anos, discursou sobre o tema perante altos membros da administração de Barack Obama. "Poderá parecer muito - mas, tendo em conta a necessidade, não é", disse à audiência presente no simpósio em Chicago, que incluía figuras como o secretário norte-americano da Agricultura, Tom Vilsack, e o director da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), Rajiv Shah.
"A escala da oportunidade significa que ninguém consegue fazê--lo sozinho - [a situação] exige a total participação dos países doadores e dos governos nacionais", acrescentou. Até agora só o Canadá tem mostrado uma atitude de liderança neste domínio. Além de se terem associado ao lançamento do Global Agricultural and Food Security Program - uma iniciativa de 925 milhões de dólares financiada também pela Fundação Bill & Melinda Gates e que conta com a participação dos EUA, de Espanha, da Coreia do Sul, da Irlanda e da Austrália -, as autoridades de Otava definiram a segurança alimentar global como prioridade da Canadian International Development Agency, que ajuda os países mais pobres.
Gates mencionou o Canadá no discurso, usando-o como exemplo. A 30 de Abril de 2011, apenas 45% do dinheiro prometido tinha sido recebido pelo Global Agricultural and Food Security Program, que distribuirá no próximo mês bolsas para países pobres que apresentem propostas de agricultura sustentável. Os EUA são os mais atrasados na transferência das verbas, tendo apenas disponibilizado 66,6 milhões dos 475 com que se comprometeram. Os 230 milhões de dólares prometidos pelos canadianos já foram entregues.
"A produtividade africana na agricultura é tão baixa que basta um investimento marginal para melhorar a produtividade, o que poderá conduzir a mudanças enormes nos níveis de produção", sublinhou Gates. "Existem boas indicações de que a agricultura africana poderá tornar-se líder no futuro em termos de crescimento e em termos de potencial", justificou.
Nos últimos cinco anos, a fundação criada por Bill e pela mulher com grande parte da sua fortuna pessoal, com participação do investidor e filantropo Warren Buffett, gastou 1,7 mil milhões de dólares a ajudar pequenos agricultores em países pobres. "A crise financeira não deve tornar-se uma crise de coragem - e não deve levar a cortes em programas que oferecem um retorno enorme", concluiu.